Crônica da Atualidade - Por Leila Cordeiro
Alma Lavada
Dizem que a alma fica lavada quando a injustiça perde a força.
Quando a dor, finalmente, para de mandar.
Quando a memória deixa de sangrar e passa a ensinar.
Mas a alma também se lava em pequenos milagres.
Ela se lava quando um poema nosso ganha música
e alguém, que nunca nos viu, chora por algo que escrevemos.
Quando uma palavra que nasceu ferida vira melodia.
Quando a arte nos absolve.
A alma se lava quando não precisamos mais explicar.
Quando não pedimos vingança.
Quando não desejamos a queda de ninguém.
Quando apenas seguimos — mais leves, mais inteiros, mais nossos.
Ela se lava no perdão que não é esquecimento,
mas libertação.
Na lembrança que não dói mais.
Na ausência que já não nos define.
Alma lavada é quando o coração descobre
que sobreviveu sem se tornar amargo.
É quando a cicatriz deixa de ser vergonha
e vira medalha.
É quando percebemos que fomos injustiçados, sim ,
mas não destruídos.
É quando entendemos que a maior resposta ao mundo
é continuar sensível.
Alma lavada não é vitória sobre o outro.
É vitória sobre aquilo que quase nos tirou de nós.
E quando isso acontece,
não há aplauso,
não há plateia,
não há vingança que supere:
o silêncio tranquilo de quem se reencontrou.
( 🦋 © Leila Cordeiro – Todos os direitos reservados)
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