Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Para entender Cartola, primeiro é preciso entender o Brasil. Não o país das lendas e do Carnaval bonito, mas o Brasil que praticou uma das políticas mais cruéis e silenciosas da sua história: a higienização social. No começo do século XX, fazia menos de vinte anos que a escravidão tinha acabado no papel. A população negra recém-liberta recebeu apenas a liberdade sem condições de exercê-la. E foi justamente nesse cenário que o Rio de Janeiro decidiu se modernizar.
O governo queria uma capital que parecesse europeia, branca, limpa e organizada. E nesse projeto de vitrines e avenidas largas havia uma ideia perversa: a de que gente pobre e preta era um problema urbano a ser removido. Era racismo travestido de urbanismo. Controle social disfarçado de civilização. O Estado demoliu cortiços inteiros, como o Cabeça de Porco, desalojando milhares de pessoas à força. Não houve plano, indenização, nem alternativa. Apenas escombros, polícia e a mensagem clara de que aquela população não era desejada no centro da cidade.
Quem não tinha dinheiro para ficar, e isso incluía milhares de negros recém-libertos, ocupou as áreas altas, terrenos abandonados e encostas que o Estado ignorava. Assim nasceram as primeiras favelas. Por expulsão. Ppor sobrevivência. Era gentrificação antes mesmo da palavra existir. Era a continuação da lógica escravista por outros meios: manter pobres e negros longe do mapa oficial. É nesse Brasil segregado e violento que nasce Angenor de Oliveira.
Filho mais velho de oito irmãos, cresceu no Catete, espremido entre urgências. O pai, Sebastião, pedreiro e violonista; a mãe, Aída, porto afetivo. A família vivia do pouco até ser engolida pela mesma modernização que expulsou tantos outros. Sem dinheiro para permanecer no centro, subiram um morro e reconstruíram a vida como quem levanta abrigo antes da tempestade.
Angenor abandonou a escola cedo para ajudar em casa. Ajudou o pai nas obras, carregou peso, consertou o que aparecia. Aprendeu a rebocar paredes e mastigou a vida como ela vinha, áspera, crua, sem suavidade. E nos canteiros de obra ganhou o nome que o Brasil aprenderia a amar. Para se proteger do reboco que caía da laje, usava um chapéu-coco. Os colegas viram aquela elegância improvisada e chamaram Cartola. O apelido, que podia ser piada, virou marca, propósito e destino. Porque na pobreza, identidade é sobrevivência. E Cartola queria mais do que a própria. Queria uma para o morro inteiro.
Em 1928, com dezenove anos, Cartola fez mais do que criar um bloco ou juntar vizinhos. Ele fundou a Estação Primeira de Mangueira. Foi ele quem escolheu o nome. Foi ele quem escolheu as cores. Foi ele quem deu identidade a um morro que o Estado fingia não ver. Verde e rosa era um manifesto. Fertilidade e delicadeza para um lugar que só conhecia o cinza da necessidade. A Mangueira nasceu do seu gesto, da sua teimosia em acreditar que o morro merecia existir com orgulho. E só quem carrega um dom e acredita nele reconhece esse chamado. O de Cartola era o samba e também o de construir um país que não o construía de volta.
Nos anos 30, o Brasil começou a ouvir sua voz no rádio. Mas o destino foi cruel nos anos 40. Depois de uma meningite que quase o matou, Cartola não desapareceu do mundo, desapareceu da própria história. A doença o deixou frágil, sem trabalho, sem casa, e a separação da primeira esposa terminou de desmontar o pouco de estrutura que tinha. Deixou a Mangueira e foi parar no Morro do Salgueiro, vivendo de favores, em quartos emprestados, em silêncios compridos. Sem força para compor e sem lugar para existir, virou um homem invisível, sobrevivendo de pequenos trabalhos no centro do Rio: lavador de carros, zelador, servente. Passava pelas calçadas como quem passa pelo próprio esquecimento. Tanta ausência que alguns chegaram a achar que ele tinha morrido. Foram quase vinte anos sem palco, sem roda, sem registro, duas décadas em que o Brasil seguiu cantando sem notar que havia perdido um dos seus maiores poetas. Um dia, Zé Kéti e o Jornalista Stanislaw Ponte Preta o viram lavando carros e perguntaram, assustados, se aquele homem era mesmo o Cartola. Era. Só precisava que alguém o trouxesse de volta.
Foi reencontrado ali, naquele instante de espanto. E pouco depois conheceu Dona Zica, que virou alicerce afetivo e emocional. Juntos criaram o Zicartola. E ali, o homem que o tempo tentou apagar renasceu. Gravou o primeiro disco solo aos sessenta e seis anos, idade em que muitos já desistiram dos próprios sonhos. E desse renascimento tardio vieram joias como O Sol Nascerá, Acontece, Tive Sim e Alvorada.
E veio também O Mundo é um Moinho, música que parece aviso, carta e confissão. Há quem diga que escreveu para a enteada. Talvez. Mas a verdade é que aquela letra fala de si mesmo. Ele sabia o que o mundo faz com os sonhos. Sabia o peso da pobreza, do racismo, da exclusão, do apagamento. Ele foi triturado, esquecido, reencontrado, refeito. E por isso dói. Porque é verdadeiro.
Cartola morreu em 1980, deixando o que nunca teve de sobra: beleza. Sua obra não fala da alma. Fala da capacidade de criar arte onde o Estado só deixou falta. Fala da resistência de um povo que existe apesar de tudo.
E no fim, Cartola morreu reconhecido, mas não reparado.
O país o aplaudiu tarde demais.
Como sempre faz com quem nasce no lado errado do mapa.
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