Símbolos da cultura paraense ganham roupagem pop nas obras de jovens artistas


Com ilustrações na maioria das vezes protagonizadas por mulheres, Helô Rodrigues desenvolve obras que trazem como tema desde o cotidiano do paraense e ícones da região, até personagens de séries de TV e ícones da música. Ela relembra que começou a demonstrar interesse pela arte ainda criança, sob forte influência do avô.
“Ele desenhava muita bicicleta, porque ele constrói bicicleta, e também me dava gibis para ler. Uma vez eu peguei papel e lápis dele mesmo e comecei a tentar desenhar as coisas que via pela minha frente mesmo, e eu vi que eu tinha alguma coisa”, conta Helô.
O resto da família então começou a incentivar a atividade de Helô, encarada por ela por muito tempo como um hobby. A artista relembra que chegou a cursar faculdade de pedagogia, e dentro do curso, amigos perceberam o talento e passaram a encomendar trabalhos. “Eram coisas tipo desenhos de mãe, pai, namorado... eu fazia e cobrava um valor baixo, em torno de 30 reais cada arte”.
Posteriormente, junto ao noivo, Helô começou a fazer oficinas de audiovisual no Curro Velho, que também acabaram sendo substituídas por outras com foco em desenho. 
“Eu comecei a pegar prática e desenvolver mais o que eu já fazia. Comecei a colorir, finalizar, usar aquarela. Fui começando a expandir meus horizontes, e aí veio a ideia de estar nas feirinhas pra ganhar alguma coisa e ver se rendia”, conta.
As vendas de prints começou então de forma tímida, em uma feirinha que integrava a programação do Circular, evento que ativa diversos pontos de cultura nos bairros do Centro Histórico de Belém. Com o passar do tempo, Helô passou a investir mais na atividade, valorizando também o próprio trabalho. Atualmente ela faz faculdade de design, e diz que consegue sobreviver do próprio trabalho como artista. Nos planos para o futuro estão a venda de camisas estampadas com suas obras, assim como ecobags.
Assim como Helô, Felipe Moia também teve familiares como referência em uma infância artística. Vindo de uma família de fotógrafos, e tendo um tio desenhista, ele começou a desenhar aos 5 anos. O artista relembra que os parentes ficavam surpresos porque, ao contrários das outras crianças na mesma idade, em vez de cobrir os desenhos, ele os olhava e desenhava. 
“Fui desenvolvendo e foi uma coisa mais por diversão. Quando eu fiz meus 15 anos de idade, comecei a buscar por um traço meu, e que eu não queria mais ter aquilo como diversão, queria como profissão para mim”, relembra.
Desenho de Felipe MoiaDesenho de Felipe Moia
Depois de um tempo parado, Felipe retomou com os desenhos e achou que era necessário ir atrás de um traço próprio. Ele conta que traz como referências artistas contemporâneos que, assim como ele, utilizam nanquim como principal material, como a cartunista Laerte.
Entre os 16 e 17 anos ele foi chamado para fazer um obra na parede de um pub: um cabeçudo, figura das festas folclóricas de bois do Pará, como o Arraial do Pavulagem de Belém e Boi de Máscaras de São Caetano de Odivelas.
Ele considera esse trabalho como o responsável por tornar seu trabalho conhecido pelo público. “Também é uma arte muito importante para mim, o cabeçudo. Ele tem um valor sentimental de infância. Foi muito importante para mim essa abertura”, conta.
O público então começou a demandar pelo trabalho de Felipe, o que gerou a criação de produtos como os adesivos, prints e ecobags. “Eu não queria que minha arte fosse comercial, mas acabou sendo, foi consequência porque tem todo um material para ser comprado, todo um trabalho, a galera queria comprar e foi o jeito partir para essa ideia do comercial (...) Não me incomoda muito que as pessoas usem, mas é necessário”.
O trabalho de Moia também explora temas regionais, trazendo símbolos do Círio de Nazaré e até da culinária, como ilustrações do tacacá; além disso, há também referências à cultura pop e estrelas da música brasileira. 
Com um estilo que transita entre o manuel e o digital, Felipe conta que atualmente tem pensado nas criações as direcionando para os produtos. “Eu prefiro fazer uma ilustração e pensar ‘essa aqui vai ser sticker’, ou ‘vai ser print’, ou vai ser só exposto para ser postado nas redes sociais, prefiro nessa vibe”, explica.
Parcerias
Helô, Fran e Moia fazem parte de um mercado explorado por um grande número de artistas, principalmente os mais novos. Todos usam o Instagram como plataforma principal, apesar de também participar de eventos. Com seguidores que passam da casa dos milhares, os três podem ser considerados casos de sucesso, mas há algumas alternativas para artistas que desejam ter suas obras estampadas em produtos ganhando alguma porcentagem em cima disso.
Pela internet há plataformas como o site Colab55, que possui uma gama de produtos vendidos com estampas de obras desenvolvidas por artistas de todo o país. Os artistas ganham porcentagens em cima do valor de cada produto.
Helô é a única do grupo que também pratica algum tipo de parceria com terceiros, a loja de molduras D’point Design, que lançou uma coleção de obras assinadas, e tem um dos trabalhos da artista entre os selecionados. Ela diz que a parceria é bastante rentável. 
Fran já desenvolveu trabalhos em parceria com Moia, como a criação de identidade visual para uma festa junina este ano. A colagista, que atualmente tem como principal produto suas camisas, sonha em ter uma loja própria, com produtos estampados com seus trabalhos.

Fonte: O Liberal/Cultura (Texto e Foto)

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