Refugiados viram empreendedores para sobreviver e conquistam brasileiros pelo estômago

No mundo dos negócios temos exemplos de pessoas que começaram de baixo, que transformaram o pouco em muito, que eram pobres e viraram milionárias. A maioria das histórias envolve determinação, coragem e superação. Elementos que também não faltam nas trajetórias de Talal Al-Tinawi, Basma Elhalabi e Liliana Pataquiva, mas, primeiro, eles precisaram usar essas qualidades para outro objetivo: a luta pela vida.
O sírio Talal, a marroquina Basma e a colombiana Liliana fugiram para o Brasil em busca de acolhimento. Percebendo a receptividade dos brasileiros por novos sabores, usaram a habilidade na cozinha como meio de conseguir o sustento para suas famílias.
Talal – Culinária Síria
Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
Tudo começou quando um amigo brasileiro experimentou a comida de Talal em uma festa de aniversário e encorajou o sírio a vender pratos típicos de seu país. A divulgação nas redes sociais, em feiras na mesquita, no Museu da Imigração e em eventos de organizações que recebem refugiados surtiu efeito e as encomendas começaram a crescer. Logo, surgiu a necessidade de abrir seu próprio restaurante. E foi com a ajuda de financiamento coletivo que o sonho se tornou possível em abril do ano passado após arrecadação de mais de R$ 71 mil.
“Para mim não foi exatamente uma escolha. Não consegui validar meu diploma de engenheiro mecânico. Tentei em duas universidades, mas não deu certo. Como eu precisava trabalhar, fiz várias coisas. Até que acabei na cozinha, que sempre foi um passatempo, e se transformou na minha profissão”, conta Talal, que viveu as piores adversidades da sua vida na Síria devido à guerra. Ficou três meses preso após ser confundido com um procurado das forças de segurança e sua família se quer teve notícias sobre seu estado durante esse período. Ao conseguir a liberdade, se deu conta que o melhor a fazer seria buscar asilo em outro país.
Desde que chegou, em dezembro de 2013, com a mulher e dois filhos, Talal diz que seu maior desafio pessoal foi com o idioma, mas recebeu ajuda e se sentiu acolhido pelo Brasil, país em que nasceu sua terceira herdeira, a pequena Sara. Só que não foi fácil abrir um negócio por aqui. A burocracia e a dificuldade em obter as informações necessárias foram os principais empecilhos. A crise econômica também anda afetando as vendas. Porém, o chef de cozinha está otimista de que o movimento no restaurante irá melhorar e segue fazendo a sua parte. Além de o empreendimento ajudar a fomentar a economia local, também emprega sua família, uma brasileira e mais duas refugiadas.
Entre os pratos mais requisitados no restaurante estão o combo de kafta com molho de romã e o falafel. Quem quiser experimentar essas e outras delícias árabes servidas pelo chef Talal, o endereço é Rua das Margaridas, 59. Jardim das Acácias, em São Paulo.
Banarabi – Culinária árabe
Arquivo pessoal
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Basma chegou em 2015 com uma mochila nas costas fugindo de uma cultura “machista, pesada e louca do Marrocos, onde tudo que a mulher faz é considerado errado. Além disso, ela tem de sair coberta e é assediada sexualmente no trabalho. Não conseguia viver mais lá daquele jeito porque fui criada em uma família de mente aberta e voltada para a ciência por meu pai ser filósofo”, conta.
No início, sem dinheiro e sem ter como se acomodar, passou por muitas dificuldades até conseguir um emprego em um restaurante libanês. Depois, procurou associações para refugiados buscando ajuda a fim de conseguir montar seu próprio negócio, já que é formada em gastronomia. E junto a seu marido, o jornalista sírio Nawras Halabi, que conheceu aqui no Brasil, começou a vender comida árabe em foodparks.
Quando o foodpark do Itaim Bibi fechou, apareceu a oportunidade de participar do programa “Shark Tank Brasil – Negociando com tubarões” e conheceram ali o dono do China in Box, Robinson Shiba, que se emocionou com a história do casal e resolveu investir neles com a proposta de um food truck. Foi aí que nasceu o Banarabi, que teve o nome inspirado no sobrenome deles e significa “filho de árabe”. “Ao apostar na gente, o senhor Shiba acabou ajudando muitas outras pessoas também porque temos dois funcionários brasileiros e usamos produtos de várias famílias refugiadas”, enfatiza a chef de cozinha.
Para Basma, é complicado abrir um negócio no Brasil e é preciso contar com a ajuda de um especialista, mas em relação às taxas cobradas considera que não são altas em comparação com outros países. A principal dificuldade mesmo é com a documentação, que ainda está pendente e sem data de resolução.
Mas a burocracia do país parece ficar pequena para a marroquina diante da alegria do povo brasileiro, que a surpreendeu devido à simpatia e o acolhimento. Outra coisa que a deixou impressionada é a diversidade do país, que tem em seu DNA a imigração. A abertura para outras culturas e o gosto dos brasileiros pela comida árabe tem movimentado o foodpark Vila Butantan onde está instalado o food truck do casal. Fica na Rua Agostinho Cantu, 47. Próximo ao metrô Butantã, em São Paulo.
Arepas Urbanika
Arquivo pessoal
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Liliana era comerciante na Colômbia e tinha uma vida confortável, com casa, lojas e carro do ano, mas não vivia em paz, precisava pagar propina aos narcotraficantes. Era coagida a todo o momento, estava sempre sob pressão e medo. Decidiu largar tudo sem olhar para trás quando a vida dos seus dois filhos foi ameaçada por eles.
No Brasil, ela e o marido tiveram problemas com a documentação, mas com a ajuda de uma igreja conseguiram resolver o problema para arrumar um emprego. Após trabalharem em um restaurante, pouparam dinheiro visando montar o próprio negócio. Como não tinham capital suficiente para um food truck, decidiram apostar em uma food bike para vender a especialidade de Liliana: as arepas, que é um pão de milho recheado, tradicionalmente, com carne e queijo.
Só que o alto custo do frete do transporte da bike impossibilita que o casal possa trabalhar todos os dias com ela e, com isso, atualmente participam apenas de eventos. Eles estão mais uma vez poupando para conseguir comprar um carro próprio e solucionar o problema, já que encontraram dificuldades com a liberação de crédito.
Mas quem quiser experimentar as famosas arepas de Liliana não vai passar vontade. Ela tem um stand no Armazém da Cidade e está por lá todos os finais de semana. Fica na Rua Medeiros de Albuquerque, 270. Na Vila Madalena, em São Paulo.

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