Crônica da Atualidade - Por Eduardo Machado


                                                             - Trinta anos essa noite –

Ouço no rádio notícia sobre acidente com um piloto de moto, durante uma prova. O rapaz estava hospitalizado entre a vida e a morte.
A expressão “entre a vida e a morte”, dita de maneira dramática pelo locutor, soprou a poeira do tempo e deixou entrever, pelas frestas da memória, incômodas lembranças. Há exatos trinta anos me vi em situação parecida. 6 de março de 1987. Dormi na minha cama e acordei numa UTI.
No início, surpresa, confusão e medo. Os médicos, à minha volta, sussurrando entre si: “infarto agudo. Bloqueio total da coronária direita...”
O olhar assustado do meu irmão mais calmo, também médico, só ampliou minha angústia.
- Como assim, infarto? Eu tenho trinta e três anos e três filhos pra criar!
Aos poucos, uma sensação de vazio acentuando a impotência diante daquele sólido e inexplicável cansaço. Olhos em busca de outros olhos, capazes de pacificar a solidão. Em lugar disso, o sono pesado e químico dos remédios.
Meu coração fez mais trinta anos, e estou aqui pra contar essa história. Sobrevivi e hoje esses sentimentos são experiência de vida, flashs que moram em minhas lembranças e insistem, de vez em quando, em rebrilhar. E quando rebrilham, aprendo muito com eles.
Na minha vivência do limite frágil da vida, perdi o medo da morte. Receio o morrer, com suas limitações, dores, perda de dignidade. Receio não poder exercitar minha maior riqueza: a liberdade de escolher. Penso, hoje, que se chegar ao ponto em que outros tenham que escolher que vida posso e devo viver, é porque essa vida já não pode mais oferecer o que quero e preciso. É hora de partir, voar em busca de outros ares.
A proximidade da morte me fez, também, acreditar ainda mais na vida, e vida em plenitude. No silêncio da UTI (e voltei lá em 2014), sem noção de tempo e espaço, preso ao leito, conectado a máquinas que monitoravam meus chamados sinais vitais, não me senti ameaçado pela morte. Ao contrário, vital e nítida, pra mim, era a sensação de estar entre a vida e a vida.
Reduzi minha fé à expressão mais infantil: “creio, porque sim”!
Tudo que pode ser compreendido e explicado no nível da racionalidade não precisa de fé. O sábio Tagore dizia que "a fé é um pássaro que pressente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura".
Na minha juventude li uma frase do Pe. Zezinho que tornou-se uma referência: “a fé é um salto no escuro para os braços de Deus. Quem salta, é abraçado. Quem não salta, fica apenas no escuro”.
Queria, e quero, luz!
Durante minha longa convalescência, rabisquei na última página da minha agenda de 1987, lotada de compromissos inadiáveis e agora ridiculamente abandonada na cabeceira da cama, um fragmento de poema que escrevi ainda no hospital:
“Minha fé anda desconfiada. Morrer; isso sim é que é tudo, ou nada...”.
Que venham os próximos trinta anos...

Eduardo Machado
06/03/2017

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