Crônica da Atualidade - Por Roberta Laíne

A triste sina de Iza

Era dia quando Izabela, mais bela do que Iza, cruzara a rua avenida Castelo Branco passando entre os taxistas e a feira da cidade. O dia começara esplendido com o nascer do sol alaranjado de Santa Luzia, mais Luzia do que Santa, pois Izabela voltava de uma noite que virara dia, e que possivelmente viraria noite e dia novamente. Haviam dois dias que bela Iza não dormia; as drogas começaram a fazer parte de sua vida desde que seu pai morrera, ficando aos cuidados, ou ausência deles na mão de sua madrasta, Cléo. Embalada ao som de uma festa de aparelhagens da noite passada, distribuía sorrisos ao andar protegida com seu namorado, Rodriguinho de Santa, que de Santo ou Santa não tinha absolutamente nada, era o dono da maior boca de fumo da cidade, e falava com seu português não estudado dos grandes “pobremas” e “tretas” da exportação da erva. Izabela não havia recepcionado bem a morte de seu pai, estudar se tornou difícil, pensar, impossível. Resolveu então recepcionar as alucinações que a maconha lhe proporcionava, ficar leve e sair da realidade era seu maior barato, junto a Rodriguinho. Quatorze anos, idade pequena para o corpo de mulher, passou a usar mini saias e tops, exibir o corpo começara a se tornar tão bom quanto usar maconha, era um barato ver os homens babando pela Iza do Rodriguinho. Na paróquia de São Francisco, Cléo, sua madrasta, rezava suas intensas “Ave-marias” pedindo pelo marido falecido, pelas filhas, por si, menos por Iza. A garota achava ela que estava perdida, órfão de pai, mãe, filha das drogas. Depois da missa das cinco Iza saiu para a boca do namorado, em busca de barato e diversão. Chegando lá, a música vinda de uma caixa amplificada rolava solta e alta, o cd de melody era o mais tocado, Iza dançava como bailarina com passes e gingados arduamente ensaiados. A festa rolava solta e a droga também, maconha, cocaína, pó, remédio, bala, e até tabaco exalava a festa na casa de Rodriguinho. O barato corria solto quando de repente um estrondo ressoo do fundo da boca, bala! Era uma bala trocada entre policiais e Rodriguinho. Iza envolvida pelo suingue do super pop continuou a dançar feliz e longe da realidade, parou quando escutou outro estrondo, o barulho tinha sido mais forte, preocupou-se em procurar Rodriguinho quando de repente sentou em uma cadeira, pesada, com uma forte dor de cabeça, o barato já estava acabando, e sua vida também, o terceiro estrondo tinha sido uma bala em suas costas, sentada em uma poça de sangue Iza viu a imagem de seu querido pai, lembrou-se de quando era menina e não precisava de maconha para viver um barato, lembrou-se dos cartazes da escola dizendo: não as drogas. Lembrou-se do por do sol alaranjado de Santa Luzia, fechou os olhos, Ave-Maria.
A autora (foto), é capanemense e tem como hábito escrever crônicas e divulga-las em sua rede social.

Edição: Roberto Lisboa
Foto: Divulgação

Comentários

  1. Estou boquiaberta com a capacidade cultural do povo Capanemense!
    E com você abrindo espaço, incentivando jovens como essa menina de visão tão ampla e já então, tão madura na arte de escrever...

    Maravilha, muito bom!
    Parabéns!

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